Por David Garcia e Geert Lovink
01/02/2010
Mídias Táticas são o que acontece quando mídias baratas tipo 'faça você mesmo', tornadas possíveis pela revolução na eletrônica de consumo e formas expandidas de distribuição (do cabo de acesso público à internet) são utilizadas por grupos e indivíduos que se sentem oprimidos e excluídos da cultura geral. As mídias táticas não só reportam fatos, mas também nunca são imparciais: elas sempre participam e é isso o que mais que qualquer coisa as separa das mídias dominantes.
Uma ética e uma estética distintiva que tem emergido, a qual é culturalmente influenciada pela MTV através das recentes obras emvídeo feitas por artistas. Começou como uma estética rápida e suja que, embora sendo só um outro estilo (ao menos em sua formavideográfica) tem vindo a simbolizar um verité para os anos 90. Mídias táticas são mídias de crise, crítica e oposição. Esta é tanto a fonte de seu poder ("a raiva é uma energia": John Lydon), como a sualimitação. Seus heróis típicos são; o ativista, guerreiros de mídia nômades, o prankster, o hacker, o rapper de rua, o kamikaze de câmerade vídeo, eles são os alegres negativos, sempre à procura de um inimigo. Mas, uma vez que o inimigo tenha sido nomeado e vencido, é aomilitante tático que ocorre entrar em crise. Logo (apesar de suas conquistas), fica fácil troçar dele com expressões típicas da direita, "politicamente correto", "cultura de vítima", etc. Mais teoricamente,as políticas de identidade, críticas midiáticas e teorias da representação, que viraram o fundamento da maior parte das mídiastáticas ocidentais estão elas mesmas em crise. Estas formas depensamento são largamente vistas como remanescentes críticos e repressivos de um humanismo antiquado. Acreditar que questões de representação são agora irrelevantes é creditar que as chances de grupos e indivíduos na vida real mesmoainda não são crucialmente afetadas pelas imagens em circulação de que ualquer sociedade dada dispõe. E o fato de que nós não mais vemos amídia de massas como a única e centralizada fonte de nossas próprias efinições pode tornar estas questões mais escorregadias, mas isso nãoas torna redundantes. Mídia Tática, uma forma qualificada de humanismo. Um antídoto útil para aquilo que Peter Lamborn Wilson descreveu como "o inoponíveldomínio do dinheiro sobre os seres humanos". Mas também como um antídoto para as novas formas emergentes de cientificismo tecnocráticoque sob a bandeira do pós-humanismo tendem a restringir discussões de uso humano e recepção social. O que torna nossas mídias táticas? Em "A Invenção do Cotidiano", De Certeau analisou a cultura popular não como um "domínio de textos ouartefatos senão como um conjunto de práticas ou operações realizadas em estruturas textuais ou em forma de texto". Ele transferiu a ênfasedas representações em si direto para os "usos" das representações. Em outras palavras, de que modo nós, como consumidores, usamos os textose artefatos que nos rodeiam. E a resposta, ele sugeriu, era "taticamente". Isso quer dizer de formas muito mais criativas erebeldes do que já tinha sido imaginado. Ele descreveu o processo de onsumo como um conjunto de táticas pelas quais o fraco faz uso doforte. Ele caracterizou o usuário (um termo que ele preferiu a onsumidor) rebelde como tático e o presumido produtor ( no qual eleinclui autores, educadores, curadores e revolucionários) como stratégico. Estabelecer esta dicotomia permitiu a ele produzir umvocabulário de táticas rico e complexo o bastante para equivaler a uma estética reconhecível e distinta. Uma estética existencial. Uma estética da apropriação, do engano, da leitura, da fala, dopasseio, da compra, do desejo. Truques engenhosos, a astúcia docaçador, manobras, situações polimórficas, descobertas prazerosas, tãopoéticas quanto guerreiras.
O conhecimento dessa dicotomia tática/estratégica nos ajudou a nomear uma classe de produtores que parecem singularmente conscientes dovalor destas inversões temporárias no fluxo do poder. E mais que resistir a estas rebeliões, fazem tudo que podem para amplificá-las. Ena verdade fazem com que a criação de espaços, canais e plataformas para estas inversões seja fundamental para sua prática. Nósdenominamos o seu (nosso) trabalho de mídia tática.
Mídias Táticas nunca são perfeitas, mas sempre em transformação, performativas e pragmáticas, envolvidas num contínuo processo dequestionamento das premissas das canais com que elas trabalham. Isto requer a confiança de que o conteúdo pode sobreviver intacto enquantoviaja de interface para interface. Mas nunca devemos esquecer de que a mídia híbrida tem seu oposto, sua nêmesis, a Medialen Gesamtkunstwerk(1). O programa final para a Bauhaus eletrônica.
É claro que é muito mais cômodo aderir aos rituais clássicos da cena underground e alternativa. Mas mídias táticas estão baseadas numprincípio de resposta flexível, de trabalho com diferentes coligações, sendo capaz de se mover entre as diferentes entidades na vastapaisagem midiática sem trair suas motivações originais. Mídias Táticas podem ser hedonistas, ou entusiasticamente eufóricas. Mesmo os hypesde moda tem seus usos. Mas é acima de tudo a mobilidade o que mais
caracteriza o militante tático. O desejo e a capacidade de combinar ou pular de uma mídia para outra criando um contínuo suprimento demutantes e híbridos. Cruzar fronteiras, conectando e religando uma ariedade de disciplinas e sempre tirando total proveito dos livresespaços na mídia que estão continuamente aparecendo devido ao ritmo da mudança tecnológica e à regulação incerta.
Embora as mídias táticas incluam mídias alternativas, não estamos restritos a esta categoria. De fato, nós introduzimos o termo táticopara romper e ir além das rígidas dicotomias que tem reatringido o ensamento nesta área por tanto tempo, dicotomias tais como amador vs.profissional, alternativo vs. popular. Mesmo privado vs. público. Nossas formas híbridas são sempre provisórias. O que conta são as onexões temporárias que você é capaz de fazer. Aqui e agora, nãoalgum vaporware ( 2) rometido para o futuro. Mas o que possamos fazer no lugar com a mídiaa que temos acesso. Aqui em Amsterdam nós temos acesso à tv local, cidades digitais e fortalezas de novas e velhas mídias. Em outroslugares eles podem ter teatro, demonstrações de rua, filme
experimental, literatura, fotografia.
A mobilidade da mídia tática a conecta com um movimento mais amplo de cultura migratória. Adotada pelos proponentes do que Nie Aschersondescreveu como a estimulante pseudo-ciência do Nomadismo. "A raça humana mostra que seus expoentes estão entrando numa nova época demovimento e migração. Os sujeitos da história, antes fazendeiros estabelecidos e cidadãos, passaram a ser os migrantes, os refugiados,os gastarbeiters ( 3) , os que procuram asilo, os sem-teto urbanos".
Um exemplo característico do tático pode ser visto no trabalho do rtista polonês Krzystof Wodiczko que percebe como as hordas dedesalojados agora ocupam o espaço público das cidades: praças,
parques, vãos de estações de trem que tinham antes sido desenhados por uma triunfante classe média para celebrar a conquista de seus novosdireitos políticos e liberdades econômicas. Wodiczko acredita que
estes espaços ocupados formam novas àgoras que deveriam ser usadas para sua determinação. "O artista", diz ele, "precisa aprender comooperar como um sofista nômade numa pólis migratória".
Como outros taticistas de mídia migratórios, Wodiczko tem estudado as técnicas pelas quais os fracos se tornam mais fortes que osopressores, ao se dispersarem, ao não terem centro, ao se moverem rapidamente pelas paisagens midiáticas físicas ou virtuais. "O caçadodeve descobrir a maneira de se tornar o caçador".
Mas o capital também está radicalmente desterritorializado. É por isso que nós apreciamos estar baseados numa edificação como De Waag, umavelha fortaleza no centro de Amsterdam. Nós alegremente aceitamos o paradoxo de *centros* de mídia tática. Assim como castelos no ar,precisamos de fortalezas de tijolos e argamassa, para resistir a um mundo de livres fluxos de capital nômade. Espaços para planejar e nãosó improvisar e a possibilidade de capitalizar sobre as vantagens adquiridas, têm sempre sido as prerrogativas das mídias"estratégicas". Como taticistas de mídia flexíveis, que não têm medo do poder, ficamos contentes ao utilizar esta abordagem para nósmesmos.
A cada poucos anos nós realizamos uma conferência Next 5 Minutes (Próximos Cinco Minutos) sobre mídia tática a nível mundial.Finalmente temos uma base (De Waag), da qual esperamos consolidar e seguir construindo a longo prazo. Vemos este edifício como um localpara planejar evntos e encontros regulares, incluindo o próximo The Next 5 Minutes. Nós vemos o próximo The Next 5 Minutes (em janeiro de1999), e as discussões que a ele conduzam, como parte de um movimento
para criar um antídoto ao que Peter Lamborn Wilson descreveu como "o inoponível domínio do dinheiro sobre os seres humanos".
1. Obra de arte total midiática.
2. Software ainda não lançado no mercado, provavelmente em pesquisa.
3.Trabalhadores imigrantes, em alemão.
Tradução: Ricardo Rosas
Fonte: http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/03/249849.shtml
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Por David Garcia e Geert Lovink
Mídias Táticas são o que acontece quando mídias baratas tipo 'faça você mesmo', tornadas possíveis pela revolução na eletrônica de consumo e formas expandidas de distribuição (do cabo de acesso público à internet) são utilizadas por grupos e indivíduos que se sentem oprimidos e excluídos da cultura geral.
